Questões como liberdade, raça e sexualidade foram tratadas no encontro entre pesquisadoras


Publicado em 17/03/2025

Por Elena Souza


Nesta semana, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) recebeu o primeiro evento do ano, o seminário “Gilka Machado, Maria Lacerda de Moura e Patrícia Galvão: Literatura, Vida e Revolução”. Realizado em um momento no qual sucessivos ataques a mulheres demonstram a permanente relevância da luta feminista, o seminário reuniu pesquisadoras para um debate acerca dos aspectos artísticos, históricos e políticos marcantes no trabalho e na vida das três autoras, suscitando questões referentes a liberdade, raça e sexualidade.

Dando início ao encontro, Alexandre Macchione Saes, então diretor da BBM, salientou que a missão da Biblioteca, na qual estão previstas a expansão e diversificação da coleção de obras raras, é cumprida quando as pesquisas realizadas no acervo contribuem para a discussão sobre questões que vão além da literatura, assim como nesse seminário.

A fala de Saes foi reforçada pelos apontamentos de Luciana Carvalho Fonseca e Fernanda Grigolin, organizadoras do encontro, que esclareceram como a pesquisa indica uma forte relação entre Gilka Machado, Maria Lacerda de Moura e Patrícia Galvão, suscitando a necessidade de discutir essa relação, bem como a atuação das três autoras como agentes de transformação social.

Na mesa “Aquelas que antecederam: As mulheres escritoras no século XIX”, Luciana Diogo falou sobre Maria Firmina dos Reis, escritora que pensou novas matrizes imaginativas acerca da liberdade no contexto de uma sociedade escravocrata. Luciana provocou os participantes a refletirem sobre como a obra de Maria Firmina poderia contribuir para pensar a mesma questão na atualidade. Laila Correa e Silva apresentou a obra e a imagem de Délia (Maria Benedicta Câmara Bormann), que, equivocadamente, foi em muitos casos associada à fotografia de uma mulher branca. A pesquisadora explicou que o trabalho de Délia trata da questão da mulher, da maternidade e do racismo no contexto escravocrata, assim como Maria Firmina, e aborda questões sociológicas sobre a definição de “mulato” na sociedade brasileira.

Abertura Seminário Gilka

À esquerda, a mesa de boas-vindas, à direita, a mesa "Aquelas que antecederam: As mulheres escritoras no século XIX – Délia (Maria Benedicta Câmara Bormann) e Maria Firmina dos Reis". Fotos: Isabela Gotsfrits/ BBM-USP

A mesa seguinte, “Gilka Machado: a mulher que deseja vida e revolução para si e para outras mulheres”, tratou da autora que foi considerada, em 1933, a maior poetisa brasileira. Jaqueline Borges comentou a raridade dos livros de Gilka encontrados na BBM, segundo ela, os escritos da autora revelam a perspectiva simbolista mesmo em seu início. A pesquisadora salientou o uso da volúpia por Gilka como modo de apontar a liberdade da mulher que sente desejo, questão que atraiu críticas e contribuiu para o afastamento da escritora do cânone literário. Suzane Veiga falou ao público sobre sua trajetória de estudos sobre Gilka, iniciada quando ela ainda era estudante de graduação. Suzane apresentou a produção poética da autora e tratou da rede de escrita, política e apoio entre Gilka e outras mulheres como ela.

Seminario Gilka

À esquerda, a mesa “Gilka Machado: a mulher que deseja vida e revolução para si e para outras mulheres”, à direita, pesquisadoras assistem à apresentação das colegas. Fotos: Isabela Gotsfrits/ BBM-USP

Na mesa “Maria Lacerda de Moura: a primeira a imprimir a palavra antifascismo e falar de amor plural no Cone Sul”, Fernanda Grigolin comentou sobre o ineditismo da palavra “antifascismo” quando usada por Maria Lacerda, cujas críticas ao autoritarismo foram respondidas com falas machistas daqueles que a atacaram. A pesquisadora salientou que outras mulheres antifascistas existiram, mas, diante de tantos silenciamentos, elas não são lembradas. Nabylla Fiori inseriu à discussão outra perspectiva de tal atuação ao lembrar que, para Maria Lacerda, desorganizar os afetos é uma forma de desarmar o fascismo. A ideia é que a espiritualidade presente na obra de Maria Lacerda não se apresenta como algo transcendental, mas sim como a solidariedade que deve ser vivida ao construir afetos socialmente, dessa forma, seriam criadas relações não previstas pela sociedade conservadora.Finalizando o seminário, na Mesa “Patrícia Galvão (Pagu): a intersecção entre sua vida, sua produção literária e seu ativismo político”, a professora Sandra Vasconcelos apresentou um panorama sobre a obra de Pagu, comentando as reverberações literárias e sociais dos artigos jornalísticos da escritora.

Seminario Gilka

À esquerda, a mesa “Maria Lacerda de Moura: a primeira a imprimir a palavra antifascismo e falar de amor plural no Cone Sul”, à direita, “Patrícia Galvão (Pagu): a intersecção entre sua vida, sua produção literária e seu ativismo político”. Fotos: Isabela Gotsfrits/ BBM-USP

Ao final do seminário, os participantes puderam acompanhar uma breve exposição de livros raros do acervo da BBM, na qual as pesquisadoras apresentaram alguns de seus objetos de estudo, aproximando o público das obras. Entre as obras estava, por exemplo, “Romance da época anarquista” ou “Livro das horas de Pagu que são minhas”, diário manuscrito de Patrícia Galvão e Oswald de Andrade. Todos os livros apresentados nessa exposição especial podem ser consultados na BBM.

Exposição Gilka

Pesquisadoras apresentam livros ao público. Fotos: Elena Souza/BBM-USP

As apresentações e discussões realizadas durante o seminário reforçaram o papel do acervo de obras raras como fonte de pesquisa e recuperação de vozes que foram historicamente silenciadas. Pesquisadoras, intelectuais e escritoras, a partir de seus trabalhos e posicionamento público, possibilitam que novos silenciamentos sejam evitados: “Calar hoje é ser cúmplice. Pratiquemos o crime inominável da coragem, no meio da covardia e do cinismo da hora presente.” (citação de Maria Lacerda de Moura, apresentada durante o seminário).